Pequenas pétalas

by - abril 26, 2020




  Hei, Autoestima! Você vai bem?
  Essa é a Mallú do futuro, e a boa notícia é que nós chegamos aos vinte e três anos. E, tudo bem, não foi nada fácil, mas chegamos.
  Nós estamos aqui, sabe? Hoje é domingo e nós temos uma rotina ótima aos domingos, porque domingo é dia de se amar. É dia de ter um date consigo mesma. Com nós.
  Eu sei que você, presa em algum dia, antes ou depois desse texto, não sabe o quanto é bom se amar de vez em quando. Seja porque ainda não descobriu, ou porque se esqueceu momentaneamente.
  Se você for minha autoestima do passado, bom, precisamos esclarecer algumas coisas...
  Você já foi tão boa comigo em alguns momentos durante o processo, que nem sei como agradecer. Você foi cruel também, mas foi boa muitas vezes.
  Ter você ao meu lado me permitiu raspar o cabelo, depois deixar crescer, aí você me estimulou a fazer aquela franjinha dos sonhos que sempre quisemos (aquela mesmo, igual a da Amélie Poulain) e mesmo com os nossos cachos, deu certo. Você também me ajudou a tomar coragem e cortar tudo, deixando só uma franjona enorme. E a vontade de ser ruiva foi embora, mesmo que tenha sido divertido escolher todos aqueles tons.
  Você também foi minha parceira quando decidi falar sobre fé e religião (acredita que ninguém ficou surtado?), porque quando o comentário saiu, foi você, Autoestima, que se fez presente e me disse que eu poderia ser tudo que eu quisesse e que a opinião alheia é só um detalhe social que temos que lidar de vez em quando...
  E foi você que me ajudou a meter as caras e fazer as unhas. Hoje a gente até gosta. Ama, na verdade. E viramos um tipo de "guru da esmaltação" para nossas amigas, que sempre pedem conselhos ou sugestões de cores. E que lindo é isso!
  Nosso corpo não é mais um problema, e a gente encara as nossas pernas grossas com certo carinho e o ódio pelas celulites já era. E temos gostado de habitar o nosso próprio corpo.
  Sabia que antes do vinte e três nós finalmente fizemos a nossa tão sonhada assinatura de Austen?
  Pois é... E, de novo, foi você, Autoestima, que me disse para fazer, me guiou na decisão do lugar e da cor e agora nosso braço é uma obra "Austenana".
  Se estou falando com a minha Autoestima do futuro e você não está legal: bom, a gente também precisa conversar...
  Eu sei que é difícil, ok? Sei que às vezes dá preguiça de se amar, dá raiva de não gostar de cada pedacinho, dá aversão por termos perdido nosso corpo de bailarina e que nem sempre as nossas unhas estão lindas e hidratadas, e que nem sempre o nosso cabelo está comportado, mas passa.
  Passa mesmo. E eu sei disso porque depois de passar pelas milhares de crises desde os dez até aqui, eu sei que passa. E você vai voltar a se curtir de novo.
  É bom curtir nosso corpo, nossa beleza singular (mesmo que seja muito singular) e nossos detalhes de ideias sobre amor próprio.
  Quer saber como você é incrível?
  Você me faz sorrir quando passo máscara de cílios e me faz ficar horas mexendo a boca na frente do espelho quando estamos com um batom escuro. É você que me faz amar minhas unhas quando estão enormes e pintadas de preto, e você adora o contorno da nossa cintura e das nossas coxas quando estamos com aquela calcinha preta.
  Aliás, você é tão maravilhosa que me fez sentir incrível mesmo falando "palavras proibidas", como calcinha, vagina e menstruação. Lembra da época que comprar calcinha era uma missão dolorosa e comprar absorvente era missão secreta e falar "vagina" era coisa de gente que não tinha cultura e educação?
  Hei, Autoestima, agora a gente se ama. E a gente não se dá bem sempre, como agora, por exemplo... Nesse domingo estamos nos amando, mas se você precisou voltar aqui, é porque não é recíproco sempre. E beleza, isso é normal, é ok e eu até que amo as nossas brigas.
  Porque quando eu estou te odiando, nossa reconciliação é cheia de desculpas fofas, amor próprio e autocuidado.
  Hoje é domingo de quarentena (deve ser o sexto ou sétimo domingo que passamos em casa, sem sair), mas está sendo incrível. Esse vírus novo é de dar medo e a real é que eu achei que essa seria a nossa grande oportunidade de DR, porque ficar em casa, juntas, convivendo com o nosso corpo em estado de letargia o tempo todo é uma barra, e geral tem surtado com vontade de cortar os cabelos e coisas do tipo, porque a quarentena do COVID-19, que é super perigoso, é tensa e faz todo mundo se questionar se o amor próprio que estava se dedicando há todo esse tempo valeu a pena. Essa era a nossa chance de DR, mas não rolou nada. Nós estamos nos amando.
  Então, se a gente passou por isso, a gente passa por essa crise leve... Talvez você só esteja brava porque a gente ainda não fez aquela hidratação boa no cabelo, ou porque as unhas trincaram e parecem não ter reparo (e vai demorar para crescer e tal), ou seja o problema dos cortes e calos nos pés e nosso problema em deixar os dedos de fora em alguma sandália legal... Mas vai passar. Vai passar porque sempre passa. E se demorar, você sabe: morangos e chantilly resolvem qualquer perrengue, junto com uma revisitada em "Orgulho e preconceito", porque o Darcy sempre estará lá para nós.
  Mas agora, Autoestima, nós estamos nos amando e essas pequenas pétalas são só um detalhe e logo elas nascem de novo.
  Eu ainda te amo e você me ama, porque é disso que somos feitas: amor.
  Com amor, para minha amada Autoestima...


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