Texto pessoal: Sobre recomeços

"Então, desde cedo, preferi me isolar. E quando você se isola, você pensa. E quando pensa, infelizmente, fica melancólico." - "Álbum duplo", de Paulo Henrique Ferreira



  Queridos leitores, eu finalmente me sinto bem o bastante para falar sobre o que tem acontecido comigo...
  Vamos do começo... Lá para o dia dezoito de julho eu recebi a péssima notícia de que estava sendo acusada. Exatamente: acusada.
  Os tramites da coisa toda não interessam, mas teve algo nisso que me abalou. E não foi a acusação em si.
  O que realmente mexeu comigo foi a argumentação que a pessoa usou. A criatura me falou que eu sou preguiçosa, desleixada e fútil.
  Claro que todo mundo tem o direito de pensar o que quiser, mas eu gostaria de ser acusada pelo que sou de fato. Só isso! Quero que as pessoas me chamem pelo que de fato sou. E não estou dizendo isso para ser elogiada, estou dizendo isso porque esse é o meu desejo. Eu mesma sou a primeira a me enxovalhar.
  Para ajudar a pessoa, vou deixar bem claro os meus defeitos aqui: eu sou arrogante, sou grosseira, sou irônica, sou emocionalmente dependente, sou preocupada com a opinião alheia, sou distraída... E isso é só para o começo.
  Me acusar de coisas que não sou e de coisas que não faço e não fiz é bem mais do que um simples equívoco; é um crime contra a minha honra e a minha honestidade. É um crime contra o que sou.
  Enfim... As acusações teriam passado despercebidas por mim, caso eu não fosse portadora da depressão.
  Quando se passa por coisas pelas quais eu já passei, quando se quer a morte mais do que tudo porque não se sente parte do mundo, uma simples ofensa já pode ser um baita gatilho.
  A desmotivação do seguimento do blog foi uma junção de um emocional cambaleante no começo e de uma eterna vontade de morte no fim. E não, isso não é vitimismo. Estou lidando com as verdades sobre a minha condição psicológica.
  Voltando... A questão é que o blog foi usado como argumentação das linhas inimigas.
  A pessoa me acusou de ter abandonado os estudos (é sério? Meu bem, você não sabe mesmo quem sou, não é? *olhos revirando*); me acusou de escrever sobre filmes (já há algo de errado aqui, não acham?) por futilidade; me acusou de ficar "ostentando" nas redes sociais (só recapitulando que a minha única rede social é o Instagram e até onde eu sei, usar roupas é o básico que um ser humano precisa fazer para existir em sociedade. Nem vou argumentar sobre o resto desse argumento, porque a coisa toda já é autoexplicativa...); me acusou de "exibir unhas extravagantes" ou seja lá como for a acusação de "te acho uma criaturinha frívola só porque você conhece o que é higiene" (o que já é bem patético, levando em consideração o fato que a pessoa toma banho usando um único sabonete - que lava do cabelo a sola do pé - e que foi a própria pessoa que, em uma tentativa desesperada e falha de consertar seus erros, me deu vários catálogos de manicure que ensinavam a fazer flores nas unhas. Se não me engano, me presentear com algo assim e depois de acusar de sei lá o que só porque eu estou fazendo, quase exatamente, o mesmo que fui incentivada, é meio suspeito...).
  Tiveram mais coisas, se não me engano, mas acho tão patético ter que explicar cada uma. Eu só falei das que me lembro porque acho importante ressaltar aqui esses pontos, já que vou argumentar algo bem relevante: tudo isso é um tipo de terapia alternativa.
  Eu tive, há muitos anos atrás, que interromper um tratamento contra a depressão porque não tinha condições de arcar com ele e, como meio de ocupar a minha cabeça para evitar pensar nas desgraças da minha vida (incluindo a existência do próprio ser em questão), fui instruída pela psiquiatra a criar atividades que me fizessem desligar do mundo ao meu redor.
  Isso tudo aconteceu em 2012 (quando eu tinha quinze anos) e foi lá que eu criei o "Garota da página ao lado". Inclusive, lá eu cheguei a comentar sobre as minhas tentativas (fracassadas) de conviver em sociedade e de trabalhar e estudar, mesmo lidando com uma depressão bem séria e sem ter nenhum tipo de tratamento para ela.
  O choque não foi a acusação, não foi a pequenez da criatura, nem mesmo foi a falta de capacidade de ler um único texto meu (o que faria a pessoa notar, primeiramente, que eu escrevo sobre livros e não sobre filmes). O choque foi de ter que lidar com a questão em si... Eu pensei: "e se eu for mesmo tudo isso e não souber?"
  Bom, eu não sou. Primeiro porque, apesar de ser acusada de ostensiva e fútil, não sou eu que estou há mais de cinquenta anos dando chiliques constantes sobre embolsar todo o dinheiro que ganha. Não sou eu que, como Ebenezer Scrooge, faço comentários públicos sobre guardar até mesmo o dinheiro dos amigos, se fosse possível.
  Eu até posso ter uma coleção de óculos escuros, mas eu tenho plena ciência de que nada disso importa, porque quando morremos não levamos nada. Minha mãe sempre diz que nós só levamos três coisas conosco quando morremos: nosso nome, nosso conhecimento e a memória que deixamos para as pessoas que ficam.
  Alguém aí viu algo sobre óculos escuros? Sobre roupas para "exibir"? Sobre qualquer coisa do gênero no discurso do que nos resta? É, foi o que eu pensei...
  Ter as coisas, me cuidar e higienizar e ser capaz de conhecer um hobby que me faz bem, que no caso são os livros e o blog, não é nada do que essa pessoa acha que é. Tudo isso é parte básica da humanidade.
  Eu compro roupas boas, que não vão se tornar pó na primeira lavagem. Eu garanto que estarei limpa e perfumada da maneira correta, ao invés de usar o mesmo sabonete de coco para tudo. Eu escolhi os livros e os monólogos sobre eles como hobby, ao invés de contar vinténs.
  Enfim... Esse não foi um texto para espezinhar ninguém e nem para me vitimizar. Esse foi um desabafo sobre as conclusões que cheguei sobre mim...
  Depois de cinco tentativas quase muito bem sucedidas de suicídio que aconteceram durante esse período de reclusão, eu consegui me sentir um pouco melhor para fazer as minhas unhas (que são naturais, caso a pessoa que me acusou esteja lendo isso. Eu sei que você acha que são um gasto absurdo porque são de gel... Não são, então pode abaixar o hormônio da TPM) novamente, para melhorar o meu humor o bastante para conseguir escrever novamente... Mas estar bem hoje não garante que estarei bem amanhã, ou daqui a alguns minutos.
  Depressão não é uma doença escandalosa. Ela é silenciosa e age sem que ninguém, além da própria pessoa que a tem e das pessoas que ela escolhe para a rodearem, saiba da sua existência.
  Bom, o desabafo foi longo (me perdoem por isso), mas eu garanto que foi muito bom para o meu humor atual.
  Eu vou voltar com o blog, mas preciso de um tempinho para me organizar. Não sei de quanto tempo vou precisar, mas espero que não seja muito mais.
  Obrigada, querido blog, por estar aqui. Obrigada, queridos leitores, por me "ouvirem" sempre.
  Com amor, Mallú.

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