quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Pingos




  A combinação perfeita de arte não quer dizer tintas bonitas espalhadas em tela, não é aquarela em corpo de gibi, não é quadro pendurado em galerias brancas...
  Arte é preencher o vazio antes da cor pingar na tela, é composição de pratos ocos em alma cheia. Arte é abstrata, mas não é Picasso...
  Uma gota de branco em uma vida cor-de-rosa.
  Um pingo de nada em mãos que labutam.
  Arte é fogo em maresia. É poema secreto, é flor que morre em água velha, é nota que vibra em coração alheio.
  Arte é sentimento e sentimento é coisa boa que vem da alma, mesmo que não seja alegria.
  Trapezistas que colorem os céus, estrelas que brilham em tetos de gesso, o cheiro das flores do campo que sobem, falecidas: é arte.
  São sensações e sentimentos. São pedaços de pessoas que circulam a terra plana e desenham suas intuições com água empoçada na alma.
  É maresia, é calmaria.
  As melhores coisas da vida acontecem quando não se espera que elas aconteçam. Toda calmaria surge depois de grandes tempestades... Em copos rasos.
  O céu que brilha com o cometa, irradia e incendeia.
  Do poema em voz alta até as frases soltas em páginas de calendário...
  Combinação perfeita é grito silencioso, é vida que basta e não caduca, não falece. É tela em branco que estrela o céu, que polemiza.
  Brasões erguidos e céu que desce. As constelações sem nexo das manchas de tinta no muro velho. O grafiteiro que pinta a rua refletindo a vida.
  Arte é combinação de natureza e humanos empilhados. A junção da fauna e da fada flora, é noz-moscada feita de barro, sujando dedos longos e de fumaça.
  Escapulir com pegadas de areia que se escondem na maré alta. Sintonia que chuvisca em tons de cinza, o rádio que não canta e só apita.
  Sentimento manso que transborda, que veste a alma de verde oliva.
  Arte combina com dom de quem já foi e renasce em quem será. Pedaço de pão murcho em performance em guerra interna.
  A nudez do museu que não entende se não é Vênus e da concha que se fecha, tímida, temerosa.
  Perdão é arte disfarçada de estada plena, é arte oca que mascara inferno, é dor que sobe em queima roupa. A alma que plana em formas de sombras de Carpo.
  Pinga na tela, tem cor de doce e cheiro forte, que colore, em hortelã.
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sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Tag: Dia de Todos os Santos

"Pensem em coisas suaves: morcegos raivosos, peste negra, torta de escorpião da mamãe... Mamãe!"



  Salut!
  Já quero começar esse post dizendo que eu nunca fui de responder tags. Eu até cheguei a responder algumas no "Garota da página ao lado" e respondi uma lá no "Chez Mallú", mas na real, eu nunca acho que eu sou esperta o bastante para encontrar o livro certo para o tópico certo.
  E apesar disso, já faz um tempo que eu tenho algumas ideias sobre tags que eu acho que seria legal criar/responder, então, talvez, eu traga algumas tags por aqui. E só para o caso da ideia ir para frente, eu criei o "etiqueta tracejada" para agrupar todas as tags que possam surgir pelo caminho.
  E sim, eu sei: "tag é muito 2017" (haha).
  Bom, mesmo assim, eu quis criar uma com o tema de Halloween, porque eu ADORO os filmes que combinam com essa época do ano e como eu tenho uma pegada pessoal de "terror de sessão da tarde", achei que seria muito divertido falar sobre livros que combinam com esses filmes que eu curto.
  Ao todo são seis categorias com nomes de filmes que eu amo e que têm tudo a ver com esse clima de Dia de Todos os Santos...
  Vamos lá!

  01. Abracadabra: uma história que tem personagens mortos, mas que é impossível parar de rir.
  - "Uma noite com...", de Lucy Holliday
  Eu escolhi essa trilogia de livros porque a proposta da autora é justamente essa: trazer mortos de volta a vida e causar crises de risos.
  A diferença do livro para o filme é que, no livro, Audrey Hepburn, Marilyn Monroe e Grace Kelly só surgem como forma de espectro e só dentro do apartamento da protagonista, e tudo por causa de um sofá mágico; enquanto o filme tem uma vela de chama negra e as bruxas voltam mesmo, em carne e osso, e causam horrores pela cidade.
  Em uma série de eventos esquisitíssimos e tiradas cômicas que só aparições do outro mundo podem causar em pleno século XXI, "Uma noite com..." tem tudo de melhor do humor britânico para combinar com as palhaçadas bizarras de "séculos salenianos" das irmãs Sanderson.
  E nem preciso dizer que na trilogia de Holliday também tem três figuras hilárias que casam perfeitamente com o humor das bruxas mais cômicas de Salem, né?

  02. A família Addams: usa situações trágicas para criar uma estória apaixonante.
  - "A extraordinária viagem do faquir que ficou preso em um armário IKEA", de Romain Puértolas
  Esse livro tem um título enorme e meio engraçadinho, mas na real a estória é muito forte.
  O Aja é um protagonista forte, com uma história muito pesada e cativante, e foi usando a sua esquisitice que ele se meteu em várias situações complicadas, e saiu delas também.
  Eu sei que a olhos nus as duas estórias não parecem ter nada em comum, mas elas têm.
  As duas narrativas têm tons mórbidos e tristes, mas usam disso para fazer comédia. Sem contar que existe uma junção de personagens improváveis convivendo dentro de um mesmo círculo social, tudo por causa do Aja, que acabou, de certa forma, ligando todas essas pessoas peculiares.
  Tanto o filme "A família Addams" quanto o livro de Puértolas têm o dom de nos fazer refletir sobre certos assuntos, mas usando a comédia como ponto de partida para tal reflexão.

  03. Beetlejuice: começa normal, fica sinistro e acaba feliz.
  - "Meia-noite na Austenlândia", de Shannon Hale.
  Eu AMO esse filme e eu sou completamente incapaz de aceitar a tradução que o Brasil deu para esse clássico do Tim Burton, então eu fico com o original mesmo... Desculpem o desabafo!
  Eu precisava falar sobre como a ideia de "começo, meio e fim" dessas duas estórias casam muito bem...
  Em "Meia-noite na Austênlândia", Charlotte, nossa protagonista desastrada e um tanto infeliz, começa se apresentando com uma vida completamente normal: recém-divorciada, mãe de dois filhos, empresária de sucesso e cheia de expectativas (sobre a vida perfeita) que foram para o buraco. Então ela decide se dar férias e ir para Austenlândia, uma pousada/hotel que oferece semanas dentro do universo dos livros de Jane Austen (o que é o meu sonho de vida, diga-se de passagem), mas logo depois que ela chega as coisas começam a ficar estranhas e o romance ideal em busca do mr. Darcy de qualquer aspirante à Elizabeth Bennet se torna um pesadelo digno de Agatha Christie.
  O mais chocante é que o final da estória é surpreendentemente feliz e a Charlotte tem lá o seu final ideal, assim como as personagens de "Beetlejuice".
  E pode crer: semelhanças são meras coincidências...

  04. Sombras da noite: uma homenagem à um clássico, mas que deu muito errado.
  - "Orgulho e preconceito e zumbis", de Seth Grahame-Smith
  Esse livro é uma releitura de "Orgulho e preconceito", de Jane Austen (sim, tem releitura de Jane Austen em duas categorias seguidas porque eu amo MUITO essa mulher), e tinha tudo para dar certo. Só deu ruim com os zumbis mesmo.
  Esse é o único livro da lista que tinha tudo para ser extremamente bizarro, completamente contemporâneo e infinitamente encantador, mas no fim das contas virou uma releitura meio mixuruca e cheia de bizarrices que me fez, como a fiel e incansável Janiete que sou, ficar chocada.
  Não preciso nem dar uma sinopse do livro, por razões bem óbvias... E mesmo sabendo que a própria srtª. Austen provavelmente faria piada da reprodução de sua obra dessa forma, fiquei magoada pela situação toda. Apesar do livro ser bem metafórico, dependendo da análise... (Vai ter resenha e explicação da obra lá no marcador Janiete, assim que o blog começar a andar mais depressa.)
  A ligação com o filme de Burton é óbvia... "Sombras da Noite" também é a releitura de uma obra que o próprio Burton assistia na infância e a verdade é que, apesar de ser bem melhor do que a série original (na minha irrelevante opinião), a produção não é lá essas coisas e saiu do bizarro para o tosco em diversos momentos da estória. Assim como o livro de Grahame-Smith.

  05. O pequeno vampiro: era para ser infantil, mas arrebata adultos também.
  - "Robô selvagem", de Peter Brown
  Esse livro conta a estória da robô Roz e de como ela tem que se adaptar a um mundo que não é o dela. Assim como os vampiros do filme que nomeia o marcador.
  A Roz cai em uma ilha deserta, adota um passarinho como filho, faz amizades com os animais da ilha e enfrenta vilões metálicos por quem ama. É muito doido! E muito incrível também.
  A trama segue o mesmo padrão que o protagonista do filme e dos seus amigos vampirinhos, que não se sentem incluídos na sociedade que vivem porque são muito diferentes do que se espera deles.
  Particularmente, eu amo tanto o livro quanto o filme e deixo o resto da análise criativa de semelhanças com vocês...

  06. O estranho mundo de Jack: era para falar de um tema, mas abordou outro.
  - "Minha Lady Jane", de Cynthia Hand, Brodi Ashton e Jodi Meadows
  Esse livro é a minha próxima leitura e eu já inclui ele aqui porque eu sei que o enredo tem tudo a ver com esse tema.
  Em "Minha Lady Jane" o principal assunto era para ser o reinado de Jane Grey, a prima de Edward VI e conhecida como "A rainha dos nove dias", mas acabou virando uma trama de magia. Tal como "O estranho mundo de Jack".
  Burton fez o Natal virar Halloween, porque o senhor do Halloween não queria mais assustar.
  Bom, Jane não queria governar, mas nem tudo são flores...
  Eu sei que pode parecer que não tem nada a ver essa comparação, mas esse é o livro que mais se assemelha com essa troca de funções inesperadas que eu escolhi como o tema da categoria 06.

  Essas foram as marcações e eu espero que essa tenha sido uma tag gostosa de se ler. E também espero que ela inspire você (ou vocês) a responder essas categorias.
  Quem quiser responder por stories e me mandar, vai ser demais!
  Bom, apesar da minha óbvia paixão por Tim Burton, acho que o que essa tag mais me fez notar é que eu até que curto responder tags e que pode ser bem divertido ter algumas aqui no blog...
  Esse é o post de hoje! Eu espero que tenha sido prazeroso ler e que as minhas indicações de livros e de filmes inspirem o seu Halloween.
  Boas lonjuras!
  Com amor...


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domingo, 6 de outubro de 2019

Paredes brancas, depressão e minhas unhas

"I'm so lonely / But that's okay, I shaved my head / And I'm not sad / And just maybe / I'm to blame for all I've heard / But I'm not sure"



  Salut!
  Eu estou surgindo por aqui para abrir o meu coração, mas só porque eu li uma coisa que mexeu comigo... Era um print de um tuíte e dizia algo como: "quem só guarda o que sente, acaba se afogando nas palavras".
  Essas não são as palavras exatas, mas o sentido está aí, implícito. Assim como o sentido das letras do Nirvana, assim como a falta de luz no olhar do Kurt Cobain, assim como a aparência meio decrépita da Amy Winehouse e assim como a nítida fragilidade emocional da Marilyn Monroe. E eu sei, ninguém se importa muito com essas pessoas, porque: a) elas já estão mortas; b) todo mundo só as vê como um bando de dependentes químicos; c) foi justamente a condição emocionalmente frágil deles que os fez lendas.
  Problemático?
  Muito! Mas isso é tema para outro post...
  E aqui, nesse momento do texto, quando as minhas mãos estão tremendo porque eu vou falar, quase em tempo real, do que me machuca, que você (ou vocês) me pergunta o que tudo isso tem a ver com paredes brancas e com as minhas unhas, porque a parte da depressão é meio óbvia, claro.
  Bom, tem a ver que tudo isso é a junção disfuncional do meu cérebro, do meu emocional e das consequências como um todo. Resumindo: paredes brancas e as minhas unhas são causadoras e, ao mesmo tempo, consequências da minha condição psicológica e emocional.
  Vamos começar pelo começo...
  Eu sei que dia é hoje, hoje é domingo. E eu só sei disso porque de domingo eu esmalto as minhas unhas. Tipo aquele lance de "Meninas malvadas", sabe? "De quarta-feira nós usamos rosa".
  Só que é diferente... Apesar de só parecer uma "idiotice" cheia de "feminice fútil", esmaltar as unhas ainda é uma das poucas coisas que eu consigo me obrigar a fazer. Sem um pingo de brincadeira.
  E sabe o que eu faço quando eu abro os meus olhos? Até aos domingos?
  Eu olho para a parede branca, que fica de frente para a cama onde eu durmo, e encaro ela até que listras escuras comecem a aparecer como ilusão de óptica.
  E hoje, em especial, eu passei mais do que o tempo habitual encarando a tal parede branca, pensando que eu poderia não levantar para esmaltar as unhas, porque elas não estavam reclamando da falta de esmalte. E aí eu pensei que uma delas, por já estar quebrada, poderia ser a desculpa perfeita para que eu não esmaltasse nada, afinal eu só precisava puxar o quebrado até arrancá-lo ao todo e ficar com uma única unha super curta...
  Para ser bem realista, eu vou transcrever exatamente o que eu pensei hoje de manhã, enquanto eu encarava a tal parede branca...
  Foi isso:
  "Eu tenho que fazer as unhas... Hoje é domingo, porcaria! Eu queria que hoje fosse sábado, porque aí eu não teria nenhuma obrigação e ninguém poderia me questionar se eu resolvesse ficar na cama o dia todo. Mas se hoje fosse sábado, hoje seria ontem, e ontem eu tive que levantar porque eu tive que comprar pão, porque eu não podia mostrar para a minha mãe que eu não estava bem. Bom, se eu não fizer as unhas hoje, ela vai saber de qualquer jeito. Mas eu estou com a unha do indicador direito quebrada; eu posso puxar ela fora e deixar sangrar. Sangrar agora seria muito bom. Se eu arrancar a unha ela vai sangrar e aí eu posso usar isso de desculpa para não fazer as unhas porque ela sabe que eu só faço as unhas quando todas estão do mesmo tamanho e quando eu não estou com nenhum machucado e aí ela não vai saber que eu não estou bem porque eu só me machuquei e aí eu não tenho que fazer nada hoje e vai ser fácil dizer que isso está doendo e que eu quero voltar a dormir para não sentir essa dor e isso me dá tempo para arrumar uma desculpa para não almoçar o que seria ótimo porque se eu não almoçar hoje eu vou poder dizer que eu estou fraca demais para tomar banho e aí ela vai querer que eu coma algo mas eu fico enjoada de domingo e isso é muito bom quando eu não quero me levantar da cama no domingo..."
  E a única coisa que cortou o meu pensamento foi o barulho da rua, porque alguém buzinou bem alto e aí eu percebi que eu tinha que ir ao banheiro. E, bom, ou eu ia ao banheiro ou eu fazia nas calças. E já aconteceu de eu fazer nas calças e não foi nada agradável.
  Enfim...
  Deu para perceber a falta de vírgulas?
  Isso acontece porque o pensamento entra em um infinito de emendas que nem dá tempo de respirar entre uma ideia e outra. E é exatamente assim que começa o declínio que leva ao suicídio. E quando eu falo de declínio, eu quero dizer que é exatamente o ato de pensar coisas pequenas, que levam a soluções queixosas, que levam a pensamentos mais tristes ainda, que levam ao vazio que começa a crescer, que leva a memórias que doem demais, que leva ao extremismo emocional, que leva ao desespero, que leva ao ato de só levantar para tomar uma atitude fatal.
  E tudo isso sem respirar. Sem vírgulas.
  E isso pode acontecer em minutos. Até em segundos.
  Em 99,8% dos meus dias eu acordo, olho para a parede branca e o infinito de pensamentos começa a surgir, me arrastando para um lugar definitivo, ou bem próximo dele, que eu sinceramente nem sei onde fica dentro de mim.
  Os outros 0,2% dos dias são divididos em 0,1% de dias que eu acordo bem, contente e disposta, com uma energia que me preenche e me sustenta; e 0,1% de dias em que eu acordo muito bem, mas alguma coisa me abate e eu fico mal de repente, do nada, no meio do dia. E quando eu digo "alguma coisa", eu realmente uso o termo no literal.
  Às vezes é alguma coisa concreta, algo que eu vejo, que eu ouço ou que eu sinto por ter conversado algo com alguém, mas também pode ser só um vazio aleatório que bate e se instala.
  E de quase todas as vezes em que os meus dias são abalados por algo, geralmente é só esse vazio que eu não sei de onde vem. E geralmente a corrente é assim: eu acordo (do nada) muito bem, contente e animada, aí o meu dia é ótimo. No dia seguinte eu acordo, novamente, muito animada e aí alguma coisa me derruba. E aí nos outros dias eu só acordo já pensando em morrer. Literalmente morrer.
  Parece dramático, mas é só a minha rotina emocional e psicológica. E é exatamente igual à rotina de mais centenas de pessoas que sofrem de depressão.
  O pior desse ciclo incontrolável de dias bons e ruins, é que logo nos dois primeiros dias pós o dia bom, a situação emocional beira a completa incapacidade de existir. E os dias ruins se repetem incansavelmente por uma, duas, três semanas ou até mais. E sempre que a sensação de desespero, de vazio, de solidão, de abandono e de agonia começam a amenizar, os dias bons aparecem. Só que os dias bons são poucos, quase inexistentes. Os dias bons se resumem a um dia bom para dois ou três meses de dias ruins.
  E é aí que voltam as paredes brancas...
  Façam as contas... Se temos doze meses no ano e eu, particularmente, tenho uma média de um dia bom a cada dois/três meses, isso quer dizer que eu só tenho entre seis/sete dias bons no ano. NO ANO!
  O meu último dia bom foi na quinta-feira, dia 03 de outubro. Na sexta eu acordei animada, tal como na quinta, e fiz tudo que eu tinha que fazer, até sai para comprar flores. Só que no meio do caminho, quando eu voltava para casa com o meu buquê, um vazio me abateu. Simples assim. Eu esvaziei.
  E aí eu estou no meu segundo dia ruim completo pós dia bom. E amanhã vai ser como hoje. E depois também e depois e depois e depois e depois... Até começar a não ser mais...
  Quando eu esvazio, me torno uma parede branca de novo. São só camadas e camadas de tinta branca sobre a Mallú que se levanta, que conversa, que ri, que entende, que abraça, que assiste, que cozinha... Eu sou uma parede branca.
  Sabe por que eu sou uma parede branca?
  Porque depressão é ausência.
  É ausência de si mesmo. É ausência de existência, de permanência. Qualquer depressão é ausência. E ausência é o mesmo que paredes brancas: só reflete o que se quer ver. Eu fico ali, inerte, descolorida, pronta para servir para segurar um quadro, um espelho ou um grafite. E quando a pintura começa a envelhecer, quando o branco queima, eu fico colorida. Mas só por um dia e algumas horas.
  E as minhas unhas, nos últimos meses, têm sido razão para a cor envelhecer mais rápido...
  Eu quero contar sobre as minhas unhas, quero falar a razão para estar vendo-as como um desgaste para a pintura, para a superfície, mas eu ainda não estou pronta para falar sobre isso publicamente, e eu já estou tremendo demais por um post.
  Falar sobre a minha condição me assusta, porque eu ainda não sei lidar com ela e, assim como qualquer depressivo, nunca vou saber. Quando aprendemos algo novo sobre os nossos limites, sobre os nossos brancos, alguma coisa nos bloqueia e nos amedronta.
  Ter depressão é sofrer de ausência, mas também é sofrer de bloqueio e de medo de ter ausência.
  Sabe quando o professor Lupin fala para o Harry que ter medo dos dementadores é óbvio, porque quer dizer que o que o Harry mais teme é o próprio medo? Então: depressão é, em grande parte, a ausência de coragem, é o medo de sentir medo. Só que o medo é um bicho enorme e encapuzado, como um espectro maligno, que só faz sugar o que resta do ser.
  É isso que eu consigo dizer por hoje...
  Com amor


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terça-feira, 1 de outubro de 2019

Vida amarela!

"Espero que a partida seja feliz e espero nunca mais voltar." - Frida Kahlo



  Salut!
  Se você acabou de cair aqui de paraquedas, vou me apresentar: eu sou a Mallú.
  O que mais se diz em apresentações? *pensativa*
  A minha seria: "Eu me chamo Maria Luisa, mas eu prefiro Mallú, porque simplifica e é fofo. Eu tenho vinte e dois anos e eu gosto de gatos. Anota aí meu Instagram...".
  Mas sabe o que não se diz quando se apresenta?
  Não se diz: "eu tenho depressão".
  Uma apresentação mais humana sobre mim seria: "Oi, meu nome é Maria Luisa, mas eu prefiro Mallú, simplesmente porque eu cresci ouvindo que meu nome era de velha e, verdade seja dita, antes dessa onda hipster de chamar a filha de Maria-alguma-coisa, as Marias eram ridicularizadas. É sempre 'Maria-vai-com-as-outras', 'Maria-gasolina', 'Maria-chuteira' e etc. Ah, e também tinha: 'Lá vai a Mariazinha'; ou então: 'mas Maria é nome de velha!' Se Maria não é pejorativo, é de velha... Eu tenho vinte e dois anos e eu convivo com a depressão há quatorze anos, mas ninguém sabia ou falava sobre isso quando eu tinha nove anos. Você sabia que crianças com depressão são tão frequentes quanto idosos com depressão? E você também sabia que as crianças não sabem o que está acontecendo com a cabeça delas? Eu nunca me tratei direito porque o homem que me pôs no mundo dizia que psicólogo é coisa de gente louca e que ele não tinha filhos loucos. Mas relaxa, ele também é uma pessoa machista que acha que mulher foi feita só para procriar e que trabalho rentável é só de homem, mas só de homem que trabalha em escritório, porque lojista e/ou pessoas que trabalham com qualquer coisa que não envolva cálculos avançados também não tem um emprego tão decente assim. Eu estava me tratando, mas não tem tratamento público na minha cidade e psicólogos são coisas caras... Ah, eu sou solitária, sabia? Não é que eu não queira deixar as pessoas se aproximarem, mas as últimas cem que passaram pela minha vida disseram coisas como: 'quando eu te conheci, eu não queria fazer novas amizades' e 'eu quis te ajudar, mas já que ser sua amiga não foi o suficiente...' e 'ela está ouvindo coisas? Dá remédio para ela!' Sabia que essa última se desculpou de uma forma bem ruim e disse que falou isso porque achou que eu fosse esquizofrênica? O que já seria bem ruim, porque não se diz isso, não dessa forma, para uma pessoa que tem qualquer tipo de transtorno psicológico e/ou emocional. Não perde tempo em perguntar da faculdade não: eu não consigo ficar em um ambiente fechado com mais de três pessoas que eu não conheço, porque eu tenho crises de pânico. Mas é um prazer enorme conhecer você!"
  ISSO seria mais real!
  Mas sabe por que ninguém sabe disso? A razão dessa apresentação ser tão generalizada e simplificada?
  Porque ninguém se importa!
  Essa semana mesmo eu conversei com uma amiga MUITO querida e ela disse: "as pessoas se tornaram hologramas de si mesmas" e ela estava tão correta que eu só pude me emocionar.
  Eu estou escrevendo isso porque, nos últimos dois anos, eu tenho visto uma movimentação enorme de pessoas nas redes sociais que se empenham em falar sobre suicídio durante o mês de setembro, motivados pelo "setembro amarelo". E eu tenho achado engraçado...
  Eu vejo sim muita gente com depressão falar sobre e eu vejo sim muita empatia de quem não tem. Mas setembro só tem trinta dias, né? E aí? O que fazer no resto do ano? E os outros onze meses?
  Bom, nos outros onze meses tem carnaval, tem natal, tem ano novo, tem férias de julho, tem feriado, tem balada, tem foto bombada nas redes, tem político causando alvoroço, tem debate por cor de vestido... Resumo: no resto do ano tem o resto do ano.
  Não, eu não sou uma lunática. Eu acho que tem que curtir mesmo, tem que viver as festas mesmo, tem que fazer tudo que achar que tem que fazer e tem que seguir o conselho de Edith Piaf: não tem que se arrepender de nada.
  Mas o problema do setembro amarelo, e do outubro rosa, e do novembro azul e de todos esses meses coloridos, é que os debates, os lembretes e, especialmente, a empatia, terminam quando o mês vira.
  Quando o outubro rosa chega, os depressivos ainda são depressivos e ainda estão falando, e/ou precisando falar, sobre depressão. Tal como quando o novembro azul chega, as mulheres ainda têm câncer de mama.
  Deu para entender?
  Não estou dizendo que essas datas não são importantes: ELAS SÃO! Mas eu quero lembrar que a prevenção ao suicídio, tal qual a prevenção de câncer, é importante o ano inteiro.
  Vidas importam!
  Eu mesma tenho tendências suicidas. Eu mesma já tentei suicídio. Eu mesma sei que elas ainda são um pensamento constante, e que aparecem com mais frequência do que você consegue dizer "babuínos bobocas balbuciando em bando" cinco vezes rápido.
  Na verdade, eu estou pensando em suicídio enquanto escrevo sobre a importância da prevenção do suicídio. E sabe por quê? Porque eu acho que nada disso aqui faz sentido.
  Eu acho que viver demanda uma energia que, na maioria dos dias, eu não tenho. Eu acho que explicar da minha doença causa muito mais espanto do que ficar quieta e ser a eterna "esquisitona". E eu sei que eu não sou a única pessoa que pensa isso.
  Eu também sei que aquela tristeza que dura mais de duas semanas, ininterruptamente, não é normal, mesmo que você esteja de luto. Eu também sei que se calar quando algo dentro de você dói, mesmo que você não saiba o que é, não é normal. Eu também sei que cogitar "cair" no meio da rua quando o ônibus está vindo na sua direção, não é normal. Eu também sei que desapegar, de uma hora para a outra, do que antes se amava, não é normal. Eu também sei que sentir um cansaço inexplicável, o tempo todo, não é normal.
  Não é fofo ter depressão. Não é romântico, não é divertido, não é frescura, não é falta de um parceiro ou uma parceira e nem falta de Deus. Não é legal ter latas, capas de celular, blusas, chaveiros e nem sei lá mais o que com estampas de remédios de tarja preta. Não é descolado ter nomes de contas em redes sociais com a palavra "depressão". Isso nem mesmo é educado!
  Foi pensando nessa situação, nesse "abandono" e nessa invisibilidade que a prevenção ao suicídio e a prevenção da depressão sofrem que eu decidi criar o marcador "coração amarelo".
  A ideia é publicar textos, pelo menos uma vez por mês, que abordem o tema da depressão e do suicídio. Eu também tenho ideias para crescer essa corrente de diálogos, mas ainda estão no papel... Por ora, mesmo com o blog em passos lentos, eu vou fazer textos mais amplos e fáceis, mas sempre (SEMPRE) com um tom completamente sincero.
  Depressão e suicídio são temas muito, MUITO delicados e eles merecem mais do que trinta dias, então sim, vai ter marcador sobre isso aqui.
  Parece mórbido, mas não se pode resolver problemas sem falar sobre eles.
  Boas lonjuras!
  Com amor...


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quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Doudou




  - Bora, petite Mallú, realizar e escavar pontos antigos que morreram em ti - diz o espelho que sorri.
  "Bora viver nossos sonhos" diz o colar que eu comprei. Então: bora!
  "Bora viver nossos sonhos" é algo que eu sempre reinvento, que eu experimento, especialmente quando os sonhos se mostram cheios de uma Mallú que eu não reconheço mais...
  Eu amo me reinventar, está escrito no meu Sol: mudança, diferença, peculiaridade. Essa sou eu!
  O recomeço da vez atende por "cobertor de segurança", ou Doudou, para os mais íntimos...
  É Doudou quem me recria, me reinventa e me colore. É para o meu quentinho Doudou que recorro nas noites frias e doloridas. E a dor é constante...
  Mas é alegria, é invenção para criança que preenche almas maduras que teimam em chorar sozinhas, seja de dor. Ou de alegria.
  Viver meus sonhos tem a ver com a minha estrela guia, com aquela constelação que cruzou o céu de verão em um almoço. Meu céu é arco-íris e meu cobertor de segurança é a mão que se estende e a boca que fala: "segue teus sonhos, menina."
  E eu sigo!
  Doudou é a esperança de continuar sendo, vivendo. O respirar, para o meu eu, é sinônimo de Doudou. E é resistência.
  Não é a resistência que ergue mãos ao céu com punho cerrado; não é resistência que se veste de todas as cores pelo direito de ser; não é resistência que incendeia bojo para fazer fogueira com as regras das costelas de Adão.
  Eu sou resistência, mas sou de mim.
  Sou resistência que tenta de novo depois dos tendões cortados. Sou resistência que grita em silêncio quando o coração se quebra e volta a colar. Sou resistência que se arma de garras para coçar as feridas que não devem fechar.
  Eu me abro no desfecho do outono e pulo o verão e o inverno.
  Sou fênix negra que cruza o céu escarlate, como um cometa rancoroso queima as estrelas.
  "Bora viver nossos sonhos" sussurra a nuvem do peito.
  "Bora!", grita o peito em resposta.
  "Sonha...", suspira a mente inquieta, que nasceu em Sol de mudança e suga a friagem de Urano para jorrar calor em forma de flor.
  Bora viver todos os sonhos que eu sempre esqueci. Bora, Doudou!


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segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Salut!

"A drª Singh me disse uma vez que se colocarmos na mesma sala uma guitarra perfeitamente afinada e um violino perfeitamente afinado e tocarmos a corda ré da guitarra, a corda ré do violino vai vibrar junto, do outro lado do cômodo. Eu sempre sentia quando uma corda vibrava na minha mãe." - "Tartarugas até lá embaixo", Jonh Green



  Salut!
  Eu acho que é a quarta vez que eu ensaio para escrever esse texto e também acho que sou incapaz de fazer uma saudação melhor do que essa por aqui ou em qualquer lugar, especialmente porque eu já tive dois blogs e usei minha criatividade de cumprimentos neles. E também teve aquela vez em que eu criei uma saudação super legal, mas dei para uma amiga que estava precisando; mas isso é outra história...
  Bom, já que eu não sei como começar, eu vou começar pelo começo, na esperança que eu consiga soar natural nessa apresentação.
  Eu sou a Mallú e se você caiu aqui por causa do link do blog, você provavelmente já me conhece. Desde de 2012 que eu circulo pela internet, fazendo resenhas de livros, falando um pouco sobre mim e compartilhando coisas completamente aleatórias que só servem para melhorar o currículo social mesmo.
  Agora, se você caiu aqui por acaso e não faz ideia de quem eu sou, bom, eu sou tipo isso que falei no parágrafo de cima.
  Meu nome é Maria Luisa, com "s" mesmo, mas eu prefiro que me chamem de Mallú e Amábili não é sobrenome, é só o meu "terceiro" nome mesmo, que inclusive, era para ser Amábile, mas é um mistério absoluto se foi o cara do cartório que errou no registro ou se o meu genitor não faz ideia de como se escreve amável em italiano. Ou, pelo menos, foi isso que disseram sobre esse nome. De qualquer forma, eu tenho pavor emocional do meu sobrenome, então o jeito é lidar com o Amábili mesmo e aceitar que vou, eternamente, existir com um erro de escrita no meu nome.
  Eu sou amante de livros e desde pequena sou um sinônimo para traça de livros. Fora isso eu curto fazer umas nail arts fofinhas, escrever uns textos aleatórios e ficar teorizando sobre as minhas obras preferidas, literárias ou não.
  O Doudou é a junção de todas essas paixões aleatórias que se encontram em uma aquariana depressiva e entediada.
  Antes do Doudou, eu era dona do falecido "Garota da página ao lado" e posteriormente do, abandonado, "Chez Mallú". Aliás, lá no Chez eu falei sobre toda essa saga doida que foi criar um novo blog, um novo Instagram e, pasmem, até mesmo um primeiro Pinterest.
  Na real, o Doudou não vai começar a funcionar para valer por enquanto, mas eu queria MUITO dar um "oi" por aqui e contar dessa e de outras novidades...
  Deixando as satisfações para o Chez, vamos falar de coisas boas: Doudou.
  Por aqui eu vou postar resenhas de livros em uma tag super legal chamada "j'ai lu" (eu sei, mas me desapegar desse marcador seria doloroso demais...). Também vou publicar textos, resenhas e teorias nos marcadores "Janiete" e no "3B", sobre Jane Austen e irmãs Brontë, respectivamente.
  Vai continuar tendo textos sobre o Havaí (maluhia), sobre os Romanov (Tsar), teorias (miss Holmes), curiosidades (tia Magnólia), textos pessoais (caderneta azul), diálogos sobre filmes (aí meu santinho!) e tutoriais de unhas (nailand).
  E, aguenta essa novidade, vou publicar vídeos no YouTube de unhas também, então a tag nailand vai ficar forrada de tutoriais, dicas de cuidados com as unhas e tudo mais que se possa imaginar sobre esse universo.
  Ah, eu também vou ter outros marcadores legais por aqui, mas esses são os que eu já escolhi um nome e acho que vai ser bem legal produzir material para tudo isso. Eu estou SUPER empolgada!
  Eu também tenho que dizer, para quem já acompanha, que acompanhar o conteúdo do blog vai ser mais fácil agora: não vai mais ter post todos os dias. Eu só vou publicar quatro vezes na semana, sendo um post de unhas aos domingos e um de resenha às quartas. Quintas e sextas os posts serão variados, de acordo com o que sair no meu sorteio de publicações.
  Assim fica melhor para mim e para quem curte o que eu publico. E não, o blog continua não sendo uma fonte de renda, caso algum espertinho (você sabe que eu estou falando com você) queira tirar essas conclusões.
  Bom, por hoje é isso e eu espero que essa notícia tenha deixado vocês felizes o mesmo tanto que me deixou.
  Boas lonjuras!
  Com amor...


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